29/11/2022

Vão-se foder, que também é de graça!



Vou contar-vos uma história verdadeira:

Há algumas poucas semanas encerrei um fórum que fundei e abri há já quase 20 anos. Não interessa para o caso especificar qual o tema, mas contava com uma comunidade já perto dos 20 mil utilizadores.

Encerrei por vários motivos: Para além do trabalho dispendido quase diariamente na administração, moderação e lançamento dos temas, tinha os custos com o registo de 3 domínios associados, ainda o custo do servidor do alojamento e ainda o preço de software, que periodicamente tinha que ser renovado caso contrário ficava desactualizado, sem suporte e com incompatibilidades nomeadamente ao nível do PHP.

A juntar a isso, frequentes ataques informáticos vindo de gente de áreas concorrentes. Neste mundo digital, como no real, anda sempre gente atenta para copiar e replicar ideias pioneiras e originais. Depois é uma guerra do mata ou morres.

Durante algum tempo, alguma receita publicitária angariada ajudava a mitigar os custos mas nunca deu para tal e esse mercado já foi chão que deu uvas.

Numa determinada altura abri aos utilizadores a possibilidade de poderem, com donativos de qualquer valor, mesmo que simbólicos, poderem contribuir voluntariamente com qualquer verba para ajudaram nas despesas. Mas em rigor, dessa comunidade de mais de 15 mil utilizadores, na altura, e durante um ano em que este aberta essa janlea, apenas um único se dispôs a colaborar com 5 euros. Ilucidativo!

Ainda coloquei a possibilidade de passar o fórum para alguém da área mas quando falava nos custos associados, desistiram porque pensavam que estas coisas funcionam do nada e que também eram de borla.

Em resumo: As coisas são mesmo assim e nada dura eternamente, nascem, crescem, eventualmente estagnam e desaparecem. Mas este meu fórum foi também assim mas não estagnou porque crescia diariamente em número de utilizadores registados.

Mas há alturas em que temos que equacionar se, a pretexto da nossa paixão e entusiasmo por um qualquer hobbie, faz sentido continuar a acumular canseiras e gastos efectivos quando tudo é pro bono.

Depois de encerrado, porque, para de algum modo manter algum relacionamenbte entre os utilizadores mais frequentes, criei um grupo no Facebook, vieram mil lamentos e carpir de penas, mas já nada havia a fazer. Posso, por enquanto, em qualquer altura retomar o projecto, mas não. Vou mesmo cortar o cordão e terminando a validade dos domínios e servidor a coisa extingue-se mesmo.

No fundo, esta situação retrata em muito a filosofias das pessoas e mormente os portugueses. São amigos de receber, de usufruir de tudo e mais alguma coisa mas sempre na filosofia da borla, e mesmo assim sentem-se detentores de direitos e de reclamações sobre algo para o qual nunca com nada contribuiram. É por isso que, não generalizando mas dentro desta espertalhna filosofia, temos largos milhares de pessoas a viverem de rendimentos mínimos dados pelo Estado e outros muitos milhares com serviços de televisão, filmes e músicas pirateados.

Somos, no geral, assim: Oportunistas e chicos-espertos a dar cobertura ao ditado de que somos meio mundo a foder outro meio. A cultura do pagar e compensar quem trabalha ou quem cria, é, em rigor, nula! Zero! Nada! Népias!

Para todos esses oportunistas, vão-se foder, que também é de graça!

Malta humilde

Não há números recentes quanto às prendas de Natal para o Mundial do Qatar. Mas em 2018 os jogadores da selecção luso-brasileira convocados por Fernando Santos para o Mundial da Rússia, ganhavam 700 euros por dia, mas, é claro, a juntar aos prémios e aos milionários ordenados auferidos nos respectivos clubes. 

Caíram nos oitavos, mas mesmo assim, de prémio, cada jogador trouxe qualquer coisita como 66 mil euros. Uma ninharia.

Vamos, pois, todos nós, o Zé, o Alfredo, o Tono, a Maria e a Fátima, que ganham ordenados mínimos, torcer por todos eles. Merecem, são humildes e laboriosos trabalhadores, que lutam com sacrifício pelo amor à camisola!

Haja algum algum bom senso! Afinal é apenas uma indústria e muito bem paga! Merecedores de apoio e admiração são todos aqueles que lutam no dia a dia, com salários mínimos ou nem isso, para pagar as contas , incluindo a da televisão onde se assistem a esses jogos!

Mas, não liguem! Isto é da idade e com o avançar dela já não há lugar a deslumbramentos e já somos daltónicos para coisas que alguns ainda veem com todas as cores. 

Nesta fase já é difícil confundir o relativismo com absolutismo. Ora um jogo de futebol ou uma competição dele, mesmo que milionária, atribuída com sujidade pelo poder dos petrodólares e a decorrer num país onde se ultrajam os elementares direitos-humanos, é apenas isso: Um jogo! Podia ser de xadrez, de damas ou sueca, mas é de futebol!

28/11/2022

Uniões de freguesias - O que se ganhou?

Em recente reportagem do jornal semanário "Correio da Feira" (13 de Outubro), sobo título "Autarcas divididos quanto à desagregação das uniões de freguesia", é abordada a questão da desagregação das uniões de freguesias no nordeste feirense, concretamente as de Caldas de S. Jorge e Pigeiros, Canedo, Vale e Vila Maior e Lobão Gião Louredo e Guisande.

Do muito que é referido e das justificações adoptadas pelos diferentes autarcas nos processos de votação em sedes de assembleiaas de freguesias, tendo sido aprovadas as desagregações, mesmo que não todas por unanimidade, e depois igualmente em sede de assembleia municipal, uma das tónicas comuns, entre os que foram a favor, contra ou nem uma coisa nem outra, todos transmitem a ideia de que com a desagregação as freguesias mais pequenas perderão capacidade reinvindicativa.

É, obviamente, uma perspetciva legítima, mas na realidade, feita uma análise séria, será mesmo assim? Até porque, pergunta-se, nestes já quase 10 anos de uniões, o que é que cada uma das freguesias menores dessas três agregações ganharam em concreto e de substancial face à situação pré-reforma? Que melhoramentos e obras substanciais foram realizadas? Que modelos de gestão e proximidade às populações foram seguidos e com que vantagens? Veja-se só um unico exemplo: Em Guisande a compra de uma sepultura no cemitério local andava pelos 500 euros. Actualmente custa 2150,00 euros. Mas naturalmente todo o aspecto de taxas trouxe um acréscimo considerável. É isto um ganho prático para as populações? 

Mesmo no sector das limpezas, na anterior situação, todos os dias de semana do ano a freguesia tinha ruas ou troços delas a serem limpas. Tinha sempre alguém que podia ser alocado a uma situação emergente. Havia, pois, sempre ruas limpas. Actualmente a coisa faz-se periodicamente e por isso uma impossibilidade de uma gestão adequada dos casos mais necessários e quase sempre com pouca profundidade. É certo que neste mandato em curso as coisas mehoraram, mas ainda assim sem uma total capacidade de uma limpeza regular e efectiva. Limpeza de sarjetas em ocasiões de chuvas fortes, quem as faz? 

A resposta para ser rigorosa, é nada! As obras mais susbtanciais continuaram a ser feitas nas freguesias cabeça. Já as perdas, essas foram notórias, com um afastamento de proximidade, com elmentos desconhecedores e desfasados das realidades intrínsecas das diferentes freguesias, etc. Ou seja e em resumo, nestes quase 10 anos, uma década, todos os indícios mostram que efectivamente as freguesias menores nada ganharam de acréscimo face às anteriores realidades.

Por outro lado, a ideia de que as freguesias menores têm menos capacidade reinvindicativa é uma falsa questão porque mesmo as mais pequenas freguesias do concelho sempre tiveram capacidade de desenvolvimento proporcional sempre que dirigidas por gente capaz e dedicada. Gião, Louredo e Guisande, mesmo com avanços e recuos, mostrarem isso, indo sempre além dos que os magros orçamentos ordinários permitiam.

Guisande nos últimos como freguesia independente tinha orçamentos anuais a rondar os 100 mil euros o que dava 400 mil no mandato. Em dois mandatos seriam 800 mil. Mas que fossem apenas 90 mil e daí 720 mil euros em dois mandatos. Pergunta-se: Nestes 9 anos de dois mandatos e picos, investiu-se em Guisande 720 mil euros, mesmo contando com o tal esforço no pagamento de dívidas herdadas?  É que não entram nestas contas as obras directas do orçamento da Câmara, como aconteceu com as pavimentações das ruas.

É certo que também concordo que passados os primeiros tempos e as dores das mudanças que foram inevitáveis, as coisas podem passar a ser melhores, pelo menos em teoria, mas só o tempo poderá confirmar isto ou, o contrário.

Para finalizar, são de facto duas realidades diferentes, mas a experiência já quase com uma década não permite nem de perto nem de longe dizer que as uniões trouxeram vantagens óbvias e significativas para as populações a ponto de se poder pensar que a reversão será pior.

Compreendo e aceito todas as posições dos diferentes presidentes de Junta das uniões, mas importa não esquecer algo importante: É que são todos originários das freguesias cabeça e em caso de continuidade do actual sistema, continuarão, concerteza a querer ter presidentes dessas grandes freguesias, numa posição de, msmo que não assumida, de preponderância, de canibalismo político. Aceitarão os de Lobão, os das Caldas e os de Canedo um presidente proposto e vindo de Guisande, de Pigeiros ou Vale, respectivamente? Hummmm! Parece-me que não!

Em todo o caso, esta é apenas uma simples opinião e cada um terá a sua e considerará válidos os seus próprios argumentos. 

Seja como for, numa ou noutra realidade, as dificuldades serão sempre muitas e não há milagres, desde logo porque as áreas de competência e intervenção das juntas são superiores aos financiamentos centrais ou municipais que recebem para isso. Por outro lado, autarcas que trabalham pelas populações apenas por amor à terra e à camisola já são raros e destes poucos os que conhecem cada um dos habitantes pelos seus nomes e a realidade dos diferentes lugares, e daí uma nítida falta de proximidade. Hoje qualquer cidadão da união vai á sede para solicitar um atestado ou expor um problema e é apenas um simples desconhecido. Provavelmente ninguém o conhecerá nem o tratará pelo nome próprio antes de se identificar.

É o que é! 

Romaria - Variante Arouca-Feira

Nisto da curiosidade somos quase todos iguais. Também curioso, fui já experimentar a nova variante Feira-Arouca, um eufemismo para apenas um troço de pouco mais de 7 Km, entre o lugar da Abelheira- Escariz e Gândara-Pigeiros na rotunda da saída da A32, acabada de inaugurar com pompa e circunstância a merecer a visita de um ministro.

Respeitando a velocidade de 70 Km/hora, fez-se em 7/8 minutos. Já tinha experimentado a anterior alterantiva pelas estradas interiores e apenas registei uma diferença de 3/4 minutos. Assim mais do que o tempo poupado, vale a qualidade e segurança do percurso o que pode fazer diferença sobretudo como acesso ao Hospital da Feira para as gentes de Arouca. 

Não sou especialista de tráfego de trânsito e muito menos decisor, mas considero que sob um ponto de vista de retirar trânsito em algumas das ruas locais, sempre tão degradadas, talvez se justificasse uma entrada/saída intermédia, porventura na intercepção da estrada que liga Romariz a Cesar, ali na zona de Vila Nova, mas até pelas características do terreno e relacionamento das duas vias, certamente que o custo dispararia. 

Assim a via é, sem dúvida, muito importante mas, a bem dizer, apenas para Arouca, e para aqueles que de algum modo vivem próximos das entradas. Para o resto, para os aglomerados dispostos ao longo de toda a via,  e mesmo para a generalidade do concelho da Feira, o interesse é muito relativo ou mesmo reduzido.

É claro que que com uma extensão tão curta nunca poderia servir muita população, tanto mais que, como disse, prescindiram de uma ligação intermédia. Sem dúvida, reitero que é importante mas quase exclusivamente para Arouca, o que de resto é merecido. Já ouvi loas exageradas quanto ao interesse da via para o concelho da Feira, o que é manifestamente exagerado. Os de Arouca precisam da via sob um ponto de vista de rentabilidade empresarial e sobretudo de acessos das populações aos equipamentos de saúde centrais, já que se servem essencialmente do Hospital S. Sebastião. Já os feirenses, esses vão a Arouca principalmente pelo laser, à vitela e ao pão-de-ló, pouco mais.

Ainda do que vi, tal como na A32, serão ainda muitos os problemas de escoamento/drenagem de águas, sendo visível as estradas na periferia cheias de lamas. Os empreiteiros são mestres a adotar soluções espertalhonas e poupadinhas, mesmo na reposição de entradas, acessos e caminhos e com elas o prejuízo de terceiros.  A ver vamos se será mais do mesmo que se verificou na A32.

Entretanto, como era expectável, era uma romaria de carros a experimentar. Tenho dúvidas que na normalidade diária o percurso tenha assim tanto trânsito simultâneo nos dois sentidos.

27/11/2022

Raimundo José da Fonseca, meu bisavô materno



Raimundo José da Fonseca, era meu bisavô materno. Nasceu em 17 de Outubro de 1884 e faleceu em 17 de Novembro de 1929, muito jovem, apenas com 45 anos.

Era filho de António José da Fonseca e de Maria de Oliveira, meus trisavôs maternos, ambos do lugar do Carvalhal, freguesia de Romariz.

Por sua vez, era neto paterno de Manuel José da Fonseca e de Margarida Rosa de Jesus e neto materno de Manuel Ferreira da Silva e Ana Maria d´Oliveira (todos estes meus tetra-avôs maternos)

Tinha 22 anos quando casou em 9 de Maio de 1907, com Margarida da Conceição  (minha bisavó), esta filha de António Caetano de Azevedo e de Maria da Conceição, do lugar das Quintães - Guisande. Tinha 21 anos quando casou.

Este meu bisavô, tal como o seu pai,  era um afamado mestre canteiro (oficial de pedreiro) e pela nossa região são várias e autênticas pérolas de granito rendilhadas por si e por alguns familiares que com ele trabalhavam. 

Em Guisande é conhecida a capela mortuária da família da Casa do Moreira, do lugar da Igreja e ainda o mausoléu  da família do meu avô paterno. Mesmo na sacristia da nossa igreja a bonita fonte ali existente é de sua autoria.

Nas imagens abaixo, o mausoléu no cemitério em Guisande, com a imagem em mármore de Nossa Senhora e ainda um de características similares, existente no cemitério de Fermedo - Arouca, embora este com a imagem alegórica  da Saudade. 

Ainda na nossa região, são várias as alminhas por eles lavradas.

26/11/2022

No fio da navalha

O que fazem quatro jovens, em plena madrugada escura, numa época de agitação marítima, junto da linha de água de um mar conhecido por traiçoeiro?.

Terão sido arrastados para o mar, sendo que três salvaram-se e uma rapariga de 20 anos está desaparecida temendo-se naturalmente o pior.

Estes filmes de total insensatez dão nisto. Não há volta a dar. Os acidentes e incidentes estão ao virar da esquina e o mundo é demasiado perigoso. 

Podia ser em qualquer lugar e circunstância, mas o constante caminhar no fio da navalha por muitos jovens, dizem que por irreverência, e de algum modo banalizar o perigo, dá nisto, na tragédia. 

Também eu pai, que me alvoroço com a saída dos filhos, não tenho como deixar de pensar nos pais daquela jovem, porventura sossegados a dormir em casa, quando ela já senhora do seu destino, mesmo o de escolher ir com colegas, de noite e em plena madrugada, para junto da linha de água de um oceano revolto, sabe-se lá por que motivo maior ou menor, foram certamente acordados, alvoroçados, destroçados com a fatal notícia. 

Não há lugar a qualquer moralismo extra, nem podia haver, mas assim tão gratuitamente dói! Dói muito!

[actualização] Já depois da notícia inicial pela qual escrevi, soube, por notícias mais frescas, que afinal o grupo seria constituído por 8 jovens e todos eles terão sido arrastados. Também sabe-se que fariam parte do Exército onde estariam em formação. Estiveram num bar de diversão nocturna até altas horas da madrugada, quase manhã, certamente que a beberem água e sumos. Depois decidiram acabar a noite em grande indo socializar para a zona de rebentamento do mar.

Esta actualização em nada desculpa o procedimento, antes o agrava pela falta generalizade de bom senso e  irresponsabilidade, tanto mais que haveria alertas para o perigo da agitação marítima.

Será de supor que num grupo haja sempre alguém lúcido e sereno o bastante para alertar os demais. Mas não! Em grupo tende-se a ampliar as coisas boas e más, porque há sempre uma maria a ir com as outras, a alinhar, a não querer fazer de fraca.

Infelizmente, a jovem teve mesmo o destino fatal, tendo já sido recuperado o seu corpo. Um peso que há-de acompanhar por toda a vida aquele grupo onde se inseria. Ou talvez não. Nada que não se supere com mais uma noite de copos.

Desculpem qualquer coisinha, mas estas coisas revoltam e porventura somos todos inocentes, apenas vítimas desta coisa transcendente chamada destino.

25/11/2022

25 de Novembro de 1975


Este sim, o 25  que traçou o rumo da liberdade e democracia, Até ali, apenas os desmandos de um PREC dominado pelo PCP que mais não pretendia que apenas mudar a agulha no disco da ditadura, da direita para a esquerda, cubanizando o país. 

Importa não esquecer. Quem celebra o 25 de Abril e esquece ou omite o de Novembro, diz tudo não dizendo nada.

Convém ainda não esquecer o que Cunhal disse na famosa entrevista à italiana Oriana Fallaci, publicada em 6 Junho de 1975, porque era esse o modelo de "democracia e regime que planeava para Portugal.

Dizia:  “Nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (...) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria”. “(...) Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento (...)”.

23/11/2022

Marçal Grilo 2 - Um olhar sobre a Educação

Ainda mal comecei a leitura do anterior e já chegou o novo livro. Ainda fresco, acabado de saír da tipografia. Tem prefácio do Prof- Marcelo Rebelo de Sousa. 

"Eduardo Marçal Grilo, Professor e conhecedor profundo dos programas de ensino e políticas de educação adotadas em Portugal nas últimas décadas, apresenta neste livro uma análise lúcida e reveladora sobre a educação durante o Estado Novo e o seu duradouro legado.

Trata-se de uma visão sobre a educação durante o Estado Novo com distanciamento e sem constrangimentos políticos ou ideológicos. Numa análise lúcida e reveladora, percebemos que muitos dos problemas atuais da educação têm raízes no Estado Novo". «O autor demonstra por que razão a educação foi um dos flagrantes fatores de retardamento nacional, entre os anos 30 e 60, apesar dos esforços meritórios de alguns, visionários ou arrojados.»

22/11/2022

Centro Social - Assembleia Geral a 02/12/2022

 


Princípios

Eu sei que se fosse no contrário da barricada, também Jerónimo e os seus correligionários, com um alto grau de probabilidade, provavelmente ficariam sentadinhos. Mas há princípios que definem quem está nas coisas por eles, pelos princípios. 

Ora estes, os princípios, podem ser muitos e diversos, nomeadamente os de carácter ideológio e doutrinário, mas os do respeito pelas pessoas e pelas diferenças devem ser comuns e transversais. 

Por isso, a posição dos deputados do CHEGA na despedida de Jerónimo de Sousa da Assembleia da República, ficando sentados e indiferentes, enquanto todas as demais bancadas estavam a aplaudir em pé, em jeito de homenagem, sendo que os deputados da IL aplaudindo mas também sentados, fica mesmo mal e a roçar uma indiferença desrespeitosa. 

Mas as atitudes ficam com quem as praticam. Não é com isto, com este radicalismo, que o Chega, ganha respeito. Por mim seguramente que não. Seria uma boa oportunidade de vincarem alguma diferença positiva, senão nas ideias, pelo menos no respeito político, democrático e pessoal, mas nem isso. Fracos!

Não sou comunista, sendo que até  já votei pelo partido, e naturalmente com muitos princípios políticos opostos, mas acima de tudo tenho apreço e respeito por Jerónimo de Sousa, que de resto sempre me pareceu ele próprio respeitoso, cordial e de muita verticalidade. 

Teve uma larga maioria de respeito e consideração na hora de sair, mas merecia, parece-me, uma unanimidade.

21/11/2022

Festa do Viso 2022 - Contas

 

The show must go on

Sempre se soube que todo o processo que culminou com a nomeação do Catar como país organizador do Mundial de Futebol de 2022, ontem começado, foi uma farsa. Uma valente e muito bem paga farsa. 

Um dos Judas intervenientes, um tal de Blatter, já se mostrou arrependido, mas não foi ao ponto do final do Iscariotes, e tanto que saiba, há-de morrer de velhice e nunca por falta de dinheiro, incluindo as 30 moedas, e dos confortos que ele proporciona.

Para além dessa trafulhice imensa que só os ricos e os poderosos conseguem afinar como mestres relojoeiros, seguiram-se as questões relacionados com a segurança dos trabalhadores, ou falta dela, nas construções faraónicas ou das mil-e-uma-noites, o respeito pelos direitos humanos, sobretudo sobre as mulheres, o tratamento para com os homossexuais, etc, etc.

As nações e as selecções delas apuradas para tão majestoso evento, foram dandos uns palpites, uns bitaites, tudo dentro do politicamente correcto, mas em rigor, tanto quanto se saiba, nenhuma boicotou a prova primando pela ausência. 

Mesmos os jogadores, ali verdadeiros príncipes nas arábias, foram também dizendos umas porreirices avulsas, mas na verdade estão lá todos muito contentinhos.

Os adeptos, esses também aparte alguns arrufos, estão lá, senão todos, os que têm carteira para isso.

Finalmente, o chefão da FIFA veio menorizar a questão e esgrimir o velho engodo do copo meio cheio ou meio vazio. Louvou os esforços feitos pelo país anfitrião e o muito que mudou, mesmo sabendo que quando as tendas se levantarem e cada um seguir à sua vida, o mais certo é que tudo vai voltar ao mesmo. 

Em rigor, as declarações do senhor Infantino andaram mais ou menos como quem desculpa o violador pela atitude e aparência provocadoras da violada e pelos esforços em violar o menos possível. 

Posto isto, as tendas estão montadas e por uns largos dias vamos ter circo com palhaços pagos a peso de ouro. 

The show must go on!

Marçal Grilo - 1


Tenho-o como uma das boas referências de ex-político e homem vertical. Comprado e chegado pronto a ler. 

Entretanto, lançou um outro livro "Salazar e a Educação no Estado Novo". 

Ainda está em fase final de pré-lançamento, mas talvez seja o próximo a adquiri, até porque, como justifica o autor: «Decidi escrever este livro por um conjunto de razões (…) mas sobretudo porque tenho hoje a ideia de que só conhecendo bem o passado se consegue perceber o tempo que vivemos e ter uma noção do que será possível perspetivar para o futuro.»

"Trata-se de uma visão sobre a educação durante o Estado Novo com distanciamento e sem constrangimentos políticos ou ideológicos. Numa análise lúcida e reveladora, percebemos que muitos dos problemas atuais da educação têm raízes no Estado Novo".

19/11/2022

Broas da mesma fornada

Creio que o meu primeiro livro "Palavras Floridas", não foi mais que, até a propósito do nome, um despretensioso ramalhete de alguns poemas, mesmo simples quadras, que se envergonhariam na sombra das de um popular Aleixo, acrescentado com alguns textos e destes um ou outro a que me atrevi a equiparar a contos.

Seja como for, mesmo destinado exclusivamente a oferta, e por isso com todo o prejuízo inerente, em dinheiro e em tempo despendido, deu-me uma enorme satisfação publicá-lo e oferecê-lo, de resto num processo que ainda não concluí, já que amigos tenho que ainda não se proporcionou a oferta. E vou ter que reimprimir mais porque continuam a pedi-lo.

Apesar desse efectivo prejuízo, se olhado pela estreita janela que se abre para um horizonte onde o brilho do vil metal é mais esplendoroso do que o do astro rei, a verdade é que tenho recebido avantajada compensa no positivismo das boas reacções e delas algumas questões interessantes e reveladoras desse interesse. 

De facto têm sido vários os que alvoroçados com o formigueiro da curiosidade querem que lhes levante a ponta do véu que cobrem as personagens, como o Hipólito, o Júlio, Julião, o Ti Jacinto, o Anjos, os Loureiros, o Abel, e outros mais nomes que polvilham esses textos.

Creio que, no fundo da questão, os que me têm desafiado a isso até já saberão a resposta, não porque realmente a saibam e nem a poderiam saber, porque a base é mesmo ficcional, mas porque as linhas que tecem as suas diferentes personalidades são as mesmas que tecem as de toda a gente. 

No fundo todos nós estamos ali representados. Com maior ou menor dose satírica ou grau de ironia, a massa que nos molda tem a mesma composição, porventura com mais ou menos sal. Mas quem já viu, como eu vi dezenas de vezes a minha mãe, a amassar o pão para a fornada semanal, as broas que  se  moldam na masseira são da mesma massa, da mesma mistura e levedadas com o mesmo “crescente”, embora umas destinadas a grandes e outras a pequenas. Eram depois submetidas ao mesmo suplício do calor curador. Mas logo mais, quando resgatadas daquela antro infernal, e já dispostas a fumegar na larga mesa, cada broa era diferente, não no sabor nem na textura do miolo, mas seguramente na sua crosta, na sua côdea, como impressões digitais iniguais. 

Em resumo, somos todos iguais broas da mesma massa humana de cada fornada, mas todos diferentes porque sujeitos a variantes de natureza tão subjectiva quanto imensurável. 

Continuando com a analogia do pão, diferenciam-nos as mãos da amassadora, a natureza e qualidade do sal, da água, do fermento,  a temperatura do forno, o tipo de lenha usada, o tempo de cozedura e, até, o amor com que todo esse processo, mesmo ciclo, foi realizado, desde a primordial preparação da terra para o lançamento das sementes de milho, trigo ou centeio, até ao momento de levar à boca um naco desse pão.

É dessas pessoas, feitas com essa massa comum e simultaneamente diferenciada, a massa humana, que procurei dar alguma vida e sentido dela nas personagens que povoam esse meu simples livro. Por isso, não se apoquentem a saber respostas porque elas são, afinal, bem simples, ou nem por isso.

Do que a casa gasta

Quando os telejornais, incluindo o da televisão dita de serviço público, abrem com o assunto da entrevista do Cristiano Ronaldo e lhe dão largos minutos de atenção, o mesmo acontecendo com os jornais a ocuparem páginas, diz muito do tipo de sociedade em que vamos navegando.

Mas há, naturalmente, quem salive por este tipo de assuntos. O acessório e o privado como fundamental. Os média, como boas moscas, vão atrás da coisa enquanto fumega de fresca.

17/11/2022

Rio Uima







Velho e sempre novo rio Uíma

De lágrimas frescas do monte,

Num misto de alegria e mágoa,

Correndo sereno, todo encanto.

Das fraldas do Mó, logo acima,

Brota num bolhão dito de fonte

E nem sabemos se feito de água

Ou, tão somente, rio de pranto.


Rio Uíma, antigo e velho Uma

Vais sem pressa, sem fulgores,

A saciar amieiros e carvalhos

A tecer com fio de prata e ouro.

De Duas Igrejas até Crestuma,

Seja lá mais por onde fores,

Segues o caminho, sem atalhos,

Ao encontro materno do Douro.

15/11/2022

Em inglês dá outra pinta - Parolismos


Eu não sei por que carga de água, talvez por provincianismo, para não dizer parolismo, insistimos em dar nomes ou designações em inglês às coisas só nossas. Até compreendo esta falta de amor próprio numa perspectiva de eventos ou negócios em muito virados para o turismo estrangeiro, em que há uma intenção de internacionalizar, de informar, mas já extender isso a coisas objectivamente portuguesas, comuns e para consumo próprio, é mesmo algo intrigante para não o adjectivar de outra forma.

Veja-se, no caso de eventos desportivos, nomeadamentes corridas agora ditas de runnings e trails e que são mais que as mães, no que parece, pelas muitas que são pagas, evidenciar ser um negócio interessante.

"Bio Run", "Xmas Trail", "Urban Run", "Last Man Standing", "Pisão Extreme", "Atlantic Clifs Adventure", "Trail Running Vila de Nisa", "Urban Trail Night Eurocidade" - Valença, "Mâmoa River Trail", "Noctis Trail", "Leiria X-Mas", "Vulcan Trail", "Lousa Mountain Trail", "Linhas de Torres Challenge","Peninha Sky Race", "Trail of Road", "Wine Trail", "Extrem Trail", "Night Trail", "Trail Summer Chalenge", "OCR Fireman Sernancelhe", "Louza Sky Race", "Dark Side Night Trail", "Cork Trail Running", "Viana Race" e muitas, muitas outras.

Mas como nem tudo está perdido, ainda há provas que têm a designação tão portuguesa, tão nossa, de "corrida", "corta-mato", "trilhos", "maratona" e "caminhada".

Posto isto, inglês é que é e dá outra pinta à coisa. Correr uma corrida ou simplesmente fazer uma caminhada é coisa de atrasados.

Mas, claro está, a coisa, o excessivo e mesmo despropositado uso de inglesismos é extensível e muitas outras actividades e sectores. Mas fiquemos por aqui como amostra.

14/11/2022

Dilema



Pensou com seus dourados botões

A bela fidalga Dona Ana Maria:

-Quero casar, ter filhos varões

Que perpetuem minha fidalguia.


- Neste dilema profundo fico

Entre D. Gil, glamoroso nobre,

Feiote mas poderoso de rico

Ou então Antão, bonito e pobre


Quem deles escolher p´ra casar

Com tão ilustre e fina donzela,

Se ao amor ou estatuto atentar?

Decisão ingrata de tal chancela.


- Sobra tempo e não tenho pressa!

Adiou a setença.- Fica pra depois!

Um dia, decidida, à coisa regressa

Resolvendo assim: - Fico c´os dois!

13/11/2022

O tempo e o vento


O vento é vento,
Contratempo  da brisa 
Alterada;
O tempo é tempo,
Sentimento que pisa
A passada.

O tempo é o vento
A soprar
Enfurecido, em ronco
Ou em murmúrio apenas;
Ora a derrubar o tronco,
Ora a afagar penas.

O tempo e o vento
São a alma a esvair
Num despreendimento
Total da vida,
Como um abraço lento,
Na calma a resumir
O descontentamento
Da despedida.

A.Almeida - 13112022

Ilusão



De quem é o olhar que te espreita,

A boca que te sorri e beija,

As mãos que o cabelo te ajeita?


E quem o teu corpo macio deseja?


Serei eu? Mereço-te?

Quero manter a ilusão,

De que me queres a mim.

Mas se não, peço-te,

Não me digas que não,

Mesmo que não digas que sim.

Nota de falecimento



Faleceu Franclim dos Santos Oliveira, de 60 anos de idade [01 de Agosto de 1962 - 12 de Novembro de 2022].

Era natural do lugar de  Orvida, freguesia de Fermedo - Arouca, mas vivia em Guisande, na Rua da Zona Desportiva, no lugar de Casaldaça, companheiro de Maria Celeste Conceição Almeida.

O funeral tem lugar na Segunda-Feira, 14 de Novembro pelas 15:30 horas, na igreja matriz de Fermedo indo no final a sepultar no cemitério local.

Sentidos sentimentos à sua companheira e a todos os seus familiares e amigos.

Descanse em paz!

12/11/2022

Santinhos



Hoje em dia, qualquer celebração religiosa, da mais simples à mais significativa, comporta um caderno de encargos detalhado, a que não faltam naturalmente as bodas, os copos de água e afins, em quintas, quintarolas e espaços de eventos, todos xpto. 

Os vídeos e a fotografias são indispensáveis e obrigam a sessões prévias e detalhadas. Tudo muito profissional. 

Os convites, esses obedecem a uma escolha a envolver design, papel, tipografia, originalidade, etc, etc. 

Dizem, e eu acredito, que, por exemplo, um casamento assim a seguir à risca todos estes aspectos indispensáveis, é mais duradouro, vacinado contra divórcios extemporâneos e por isso, com grandes probabilidades de, com vida e saúde, chegarem a bodas de prata e depois de ouro.

Pois bem, ainda bem que assim é. Afinal, a garantia da felicidade a dois custa dinheiro mas é possível.

Longe vão os tempos em que o convite de um casamento se resumia a mandar imprimir umas pequenas estampas, ditas "santinhos", do tamanho de um cromo de jogador da bola. 

Até  mesmo o nosso saudoso pároco Pe. Francisco quando fez Bodas de Prata paroquiais e sacerdotais, assim fez, mandando imprimir uns santinhos, com pelo menos três diferentes ilustrações e no verso os dados e data do acontecimento, de que reproduzo na imagem que ilustra este apontamento.

Outros tempos, em que o acessório era mesmo isso, acessório. Mesmo com uns convites tão simples, certo é que não só fez as Bodas de Prata em 15 de Agosto de 1964,  como 25 anos mais tarde, em 15 de Agosto de 1989, completou Bodas de Ouro. Afinal, parece que o aparato dos convites e  afins pouco ou nada contará para o totobola da felicidade e matrimónio duradouro. Mas conta, pelo menos, para o dia. O seguinte já pouco importa. Peanuts!

11/11/2022

-Bem vindo ao mundo da realidade!



Há dias, alguém que estimo e da minha reduzida rede de amigos facebookianos, dizia-me pessoalmente que não compreendia que algumas das coisas que pelo Facebook partilho, sobretudo artigos ou apontamentos relacionados à história da freguesia, fotografias, poemas e ilustrações, não tenham mais comentários e "gostos".

Respondi-lhe: - Caro amigo, bem vindo ao mundo da realidade! Aqui não é um espaço de reconhecimentos e de sinceridades. Aqui valem sobretudo os grandes grupos e os interesses que se estabelecem entre eles. Se tens uma grande tribo que cultivas na arte do bajulatório, basta dares um peidinho de uma qualquer insignificância ou egocentricidade do teu dia-a-dia para teres largas dezenas de likes e comentários e sentires-te importante, inflamado. Uma alarvidade ou, vá lá, banalidade, se dita por alguém que bajulas, é certinho e direitinho que tem direito a dezenas de deferências. Ao contrário, qualquer laivo ou rasgo de meritório, de inspiração artística ou poética, opiniões e pensamentos próprios e escritos pela tua caneta, se porventura a necessitarem de um qualquer incentivo à continuação e melhoramento, a coisa morre logo ali à nascença, quase sem ninguém que lhe acuda verdadeiramente.

Por conseguinte, farto-me de dizer o óbvio: As redes sociais não são mais que uma extensão do que somos lá fora, porventura com o mérito de realçar aquilo que somos, nas coisas boas e menos boas, nas qualidades ou falta delas. 

Posto isto, o que vou por aqui partilhando é mesmo uma teimosia a pensar numa boa dúzia de mentes sensíveis e com capacidade de admirar e valorizar. Nem mais nem menos!

Mas vejamos sempre a coisa pela positiva, até porque, de novo socorrendo-me da velha sabedoria popular, "ovelhas não são para mato" ou mesmo "os burros também se ensinam". Talvez por isso, muitos dos meus bons amigos, por quem tenho apreço cultural e de cidadania, andam afastados destas coisas e se até têm página pessoal, pouco ou nada escrevem e só aparecem esporadicamente como quem a abrir as janelas num dia de sol para arejar a casa fechada.  

De alguns, bons, que por cá andaram no início, acabaram por sair ou deixar de aparecer porque perceberam que isto de andar a partilhar e a escrever coisas próprias, a exercer cidadania, sem ser egocentrismos e banalidades, tem custos e sobretudo não gera clientela à altura. É o que é. 

Desses bons, tenho sobretudo saudade do José Marques Pinto da Silva, das Caldas de S. Jorge, figura de saber falar e melhor escrever, senhor de princípios e lutas a que nunca virou costas às vagas, mesmo com as bategadas fortes de quem não tinha estofo para estar à sua altura. Andou literalmente a chover no molhado e a malhar em ferro frio, porque sem concorrência à altura. Mas era um gosto ler e reflectir no que escrevia, mesmo não sendo da sua freguesia.

Obrigado pois a todos os bons amigos que ainda têm bom gosto, sabem ver a beleza de uma fotografia e o que ela apresenta e representa, o sentido transcendente de um poema, a reflexão de um qualquer pensamento ou opinião, a arte, mesmo que não académica, de um rabisco. 

Quanto ao resto, a caravana, esta passa e os cães ladram. Não fosse assim, esta lei da natureza, e um pai pinguim nunca conseguiria encontrar o seu filho no magote de milhares dos seus quando regressa do mar com o estômago cheiro de peixe para partilhar.

A natureza humana tem muito a aprender e a reflectir com a natureza animal, mas aquela sempre em desvantagem, porque esta, mais pura, genuína.

S. Martinho

Bom dia, este de tradição

Em celebrar o S. Martinho;

Logo com sol do seu Verão,

Fogueira, castanhas e vinho.

03/11/2022

A chuva e a ribeirinha

Esta chuva miudinha,

Parecendo que não molha,

Vai caindo boa, fecunda;

Bebe dela a ribeirinha

Sedenta na sua recolha

Quando o vale se inunda.


Corre, corre, ribeirinha,

Vai assim toda ligeira

Como prata feita num fio;

A chuva cai, vais cheiinha,

Numa correria de canseira

Ao encontro de maior rio.

02/11/2022

Movimento perpétuo

São já frescas as manhãs 

em Novembro,

Depois, deixado p´ra trás,

Virá Dezembro,

Com o Natal, mais adiante,

Apetecido;

O tempo corre em instante

Ressurgido;

A roda roda em todo o tempo

Sem se deter,

Num só perpétuo movimento,

A renascer.

O tempo tem tempo demais,

Não se cansa;

Com começo e fim iguais

Quem o alcança?

O culto da ofensa

Num tempo de coisinhas politicamente correctas, andamos a criticar todo e qualquer acto de descriminação, xenofobismo, racismo, etc, apelando a princípios de civilidade e inclusão. Em suma, respeito.

Todavia, pelo que li e ouvi, um futebolista português ao serviço de uma equipa estranjeira, terá sido assobiado durante todo o tempo em que actuou num certo estádio, ofendido e desrespeitado, incluindo com a exibição de uma tarja insultuosa à sua vida pessoal.

E qual o pecado de tão vergonhoso tratamento: O de apenas, no exercício da sua profissão e liberdade, ter sido, antes do seu actual clube, um jogador de uma equipa rival.

Este tipo de comportamento, que é transversal ao nosso futebol e a alguns clubes ditos grandes, é de todo intolerável, porque comporta sentimentos de rancor e mesmo de ódio, de forma gratuita e sem qualquer motivo maior. Custa a crer que pessoas civilizadas, jovens ou adultos, vão para um estádio de futebol com comportamentos indignos como se a uma tribo se desculpe toda a animalidade, não para ver o espectáculo ou apenas para apoiar e incentivar o seu clube, mas para insultar um atleta tratando-o como um reles e indigno criminoso.

E andamos todos a assobiar para o ar e a dizer com o peito cheio que somos este ou aquele clube, no fundo a pactuar com estes comportamentos. 

Vai sendo tempo de as coisas irem mais além no que toca a consequências. Há limites, e o que se viu já não é so rivalidade, mas fanatismo do mais primário, porque mesmo a rivalidade deve assentar sempre no respeito pelos adversários. 

01/11/2022

Vela acesa

A missa do "Dia de Todos os Santos" é, sem dúvida, a mais participada de todas quantas se celebram na nossa paróquia. De há anos. Creio que não será diferente nas demais. Nem mesmo em dias tão solenes quanto a Páscoa e o Natal, a nossa igreja fica tão apinhada de gente. 

Creio que pela importância litúrgica, tanto a da Páscoa como a do Natal mereceriam mais participação, mas seja como for, é igualmente simbólico que assim seja neste dia. Afinal os santos que em primeiro lugar celebramos são os da casa, os nossos familiares, recentes ou antepassados que já partiram. Mas também amigos e demais pessoas da nossa comunidade. Porventura só depois virão os santos a sério, mais ou menos conhecidos, cuja lista é interminável, porque os populares, esses têm festa própria garantida e com festança a acompanhar.

Estou convencido que  em grande parte assim é porque tendemos a viver estas coisas de forma tradicional e rotineira, porque é feriado, porque é habitual, porque todos vão e mal parece que fiquemos por casa. 

Mas por outro lado, mesmo um relógio parado aponta horas certas duas vezes ao dia, e assim mesmo nestas nossas rotinas há sempre algo de genuíno e profundo e um sinal de que mesmo que por uma ou poucas vezes ao ano, damos conta de quem já partiu à nossa frente e isso chama-nos à realidade de que um dia, cada um no seu momento, também partiremos, sem malas nem bagagens. 

Aproveitemos pois este dia e o de amanhã, de resto, todos, para ter, tanto quanto possível, esta reflexão em conta. 

Uma vela, protegida do vento, dá sempre luz enquanto lhe durar a cera.

O comboio do tempo - A Estação dos Sessenta

Tinha eu embarcado na Estação dos Cinquenta, com ar de decidido, ainda alegre, bem disposto e fresco, já esquecido que a Estação dos Quarenta ficara para trás.

Mal o comboio do tempo deu sinal de partida, abri a janela da carruagem, respirei fundo, e naqueles primeiros metros de viagem  a Estação dos Sessenta parecia-me ainda bem distante e dei comigo a pensar que seria um percurso para saborear calmamente em cada curva da linha. Faltaria ainda muito caminho a galgar e carril a romper.

Mas agora, depois de várias paragens em outros tantos apeadeiros, com o olhar a comer planícies, montes e vales, cheguei finalmente à Estação dos Sessenta. E a viagem já passada pareceu-me agora  tão curta como uma noite bem dormida.

À chegada do comboio, que se deteve vagarosamente entre uma nuvem de vapor arrotada pela locomotiva negra e cansada, o chefe da Estação dos Sessenta anunciou cerimoniosamente com a sua voz forte e pausada: - Deu entrada na Linha 1 o comboio do tempo, proveniente da Estação dos Cinquenta. Os passageiros que se dirigem para a Estação dos Setenta é favor prepararem-se. O comboio vai parar em todos os apeadeiros. Gozem a viagem enquanto puderem porque nem todos lá chegarão!

O comboio apitou num lamento longo e todos os passageiros, mesmo os que tinham ido fazer xi-xi, apressaram-se a retomar os seus lugares porque não lhes era permitido ficar por ali suspensos no tempo. O fogueiro abriu as válvulas da caldeira e a pesada locomotiva envolta em fumarada começou a engolir metros daquele par de linhas de aço tão próximas quanto separadas.

A recomendação do chefe da estação tinha esmorecido o já reduzido entusiasmo dos viajantes. Não era necessária. Afinal, todos sabiam que entre as estações principais de um comboio, até mesmo este especial,  o do tempo, há sempre passageiros que ficam pelos apeadeiros intermédios e serão menos os que chegarão à Estação dos Setenta, prontos a seguirem viagem até à estação seguinte.

Seja como for, chegado aqui, que remédio senão embarcar. É que não há outro transporte alternativo nem algum que faça a viagem em sentido contrário. É contra as leis do Senhor do Tempo, dos seus comboios, locomotivas e carruagens.

Parto, pois, na expectativa de entretanto poder chegar ao primeiro apeadeiro e depois ao seguinte e por aí fora até que se possa avistar e atingir a Estação dos Setenta. Há quem diga que fica a longa distância mas outros auguram que é já ali ao virar da curva.

A vantagem, é que a partir destas estações  avançadas, há menos passageiros e há lugares de sobra nas poucas carruagens. Todavia, dizem que os carris que a ela conduzem são mais estreitos e irregulares e que são frequentes os descarrilamentos antes da chegada à estação seguinte.

Não há nada a fazer. Apenas embarcar e seguir em frente na linha. Dos apeadeiros e as estações que faltam percorrer a cada passageiro do velho comboio, só o Senhor do Tempo o saberá. Alguns chegarão concerteza à Estação dos Setenta, talvez menos à dos Oitenta, menos ainda à dos Noventa e seguramente já poucos à dos Cem. 

Dizem que para lá da Estação dos Cem, talvez nem haja estações, quando muito dois ou três apeadeiros. Poucos o sabem. Todavia, em boa verdade, talvez já nem interesse saber, porque com tantos quilómetros já percorridos, com passagens por apeadeiros e estações, os passageiros deste comboio do tempo vão ficando cansados, amassados dos ossos e com os olhos já turvos de ver as paisagens a fugir-lhes. Talvez seja mesmo preferível fechar os olhos e tentar dormir no embalo daquele torpor constante do comboio a rolar no aço frio e a velha locomotiva a gemer, a gemer, a gemer.

Quem, sabe, talvez o fim da linha, o final da viagem seja numa esplendorosa e imensa estação forrada de  brancas e fofas nuvens, e o seu chefe seja o S. Pedro, a colher-nos numa voz suave e murmurada por entre uma espessa barba da cor das neves: - Senhores passageiros do comboio do tempo, chegaram à Estação do Tempo Final. Terminou a vossa viagem! O Grande Senhor do Tempo espera-vos para vos dar as boas vindas com um chazinho quente e bolachinhas celestiais! Façam bom e eterno proveito!

Sessenta



Eis-me aqui, sereno, nos sessenta,

Se é que nisso haja importância;

Não mais que onda que arrebenta

Na dura costa da irrelevância.


Deixe-se, pois, que o mar do tempo

Se debata até que a falésia caia;

Virá depois, manso, em contratempo,

A espumar-se, sereno, na praia.

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