31/12/2022

Incertezas

Quando chegamos a uma certa idade, em que já podemos dizer a alguns, muitos, que poderíamos ser seu pai ou avô, uma das coisas a que não conseguimos fugir é o reviver de momentos, episódios, situações com que algures, em tempos mais viçosos, fomos confrontados.

O Macedo, já na casa dos sessenta, mas feliz com o que a vida lhe deu e tem, não encontra nela grandes remorsos ou arrependimentos tão simplesmente porque convencido está que isso em nada lhe acrescentará. Mas de quando em vez, como quem faz rewind numa velha cassete do tempo, recorda alguns namoricos e casos sentimentais, ou oportunidades deles, que teve antes de, cansado deles, decidir-se a enlaçar-se com aquela que lhe pareceu ser mais parte de si, a sua Fátima.

Numa dessas viagens ao passado, em que tudo se vê de olhos cerrados, viu-se fresco e viçoso, mesmo na altura em que fora convocado ao serviço militar por onde lá pelas lisboas marchou durante dois anos certinhos. Travara, por essa altura, conhecimento com a Celeste, ainda mais fresca do que ele, quase a transpor a maioridade mas ainda menor.

Durante alguns poucos meses encontravam-se e namoravam sem o saber, em longas ou curtas conversas, em que por vezes falavam mais os olhos que as bocas, o olhar que as palavras. Pelo meio, algumas cartas trocadas, sem subterfúgios ou ideias disfarçadas na semântica. De tão ingénuas e transparentes, poderiam ser cartas de irmãos. E se o Macedo enredava na escrita uma qualquer segunda intenção, só a Celeste a poderia decifrar.

Apesar disso, o Macedo era um rapaz na força da vida e tinha naturalmente desejos de poder colher e saborear aquela frescura rubra de cereja a baloiçar no ramo, que se lhe oferecia, e também o percebia nas feições e palavras da Celeste. Mesmo naquela ocasião em que se viram sozinhos na casa da tia dela, numa tarde de chuvinha macia, ficaram tão perto que o silêncio os cobriu e as mãos tocaram-se numa tímida hesitação. O Macedo, jovem mas maduro o suficiente para saber de como as coisas se complicam, sabia da diferença de idades e do facto dela ser menor e quando lhe passou pela cabeça aproximar os seus lábios dos dela, que lhe pareciam convidativos e serenos como porto seguro, estremeceu e recuou enquanto disse uma qualquer banalidade sobre o tempo. A Celeste enrubesceu e respirou fundo como que a acordar de um sonho de segundos.

Continuaram amigos por mais algum tempo e pouco depois cada um seguiu o seu rumo. Ela emigrou, casou, dizem que ainda não teve filhos. Viam-se, esporadicamente, pelo verão, uma ou outra vez, por circunstância, mas a ele parecia-lhe já distante aquele Celeste, maneirinha, fresca, cabelo comprido, olhos negros e lábios de cereja que ele poderia ter saboreado. 

Ele cumpriu a tropa, casou e teve filhos. Sente-se pleno e feliz e nem esta ou outras parecidas situações, lhe trazem angústias. De resto, para além do medo das consequências, no fundo hesitou e recuou porque jamais poderia lidar com a recusa. Pareceu-lhe que naquele passado momento a Celeste também o convidava, mas nunca se sabe o que vai na alma das mulheres e até mesmo uma rapariga naquele silêncio morno  poderia despertar e dizer, não!

Se de tudo aquilo algum dissabor deixou ao Macedo, apenas a incerteza. Como teria sido se deixasse o corpo seguir o seu instinto? Com que consequências para si, para a Celeste ou para ambos?

Não! Não importa imaginar cenários e desfechos. Afinal, a incerteza é sempre um essência da nossa vida. Porque atalhamos pela esquerda e não pela direita ou porque não recuamos ou seguimos em frente? Se formos a dar palco às incertezas, a nossa vida ficaria de tal modo assoberbada que não restaria tempo para a viver. E tão curta que ela é….

29/12/2022

Voando e aterrando

O ministro das infraestruturas e habitação Pedro Nuno Santos, finalmente, depois de um longo e atribulado voo, aterrou, e já não faz parte do instável Governo da maioria. 

Depois de vários casos que o debilitaram, nomeadamente o puxão de orelhas do primeiro ministro a  propósito da localização do putativo aeroporto, e agora da recente escandaleira com uma tal de Alexandra Reis, a juntar a outros tantos, só tinha mesmo essa saída. 

Foi a decisão que se impunha mas já vai tarde, quase três anos. 

Quanto à TAP, nem deveria existir porque é uma empresa ruinosa que desbarata milhões e milhões de todos nós contribuintes e, contudo, continua a ter uma gestão milionária, como se vivesse de forma independente e altamente rentável. Negociar prémios chorudos à administração, contratar frotas de automóveis de luxo, e dar euromilhões a quem sai, é no mínimo de bradar aos céus, o que faz sentido sendo uma companhia aérea.

Assim, sendo, há ainda muito a fazer, desde logo demitir a actual administração, a custo zero, e logo que possível privatizar o que resta desse buraco negro antes que continue a absorver fundos e dinheiros que, está visto, não temos.

Claro está, que António Costa, vai-se esgueirando por entre os pingos da chuva, mas ele próprio tem muitas responsabilidades e só por isso se justifica que um governo de maioria, que deveria ser estável, já vá  numa dezena de saídas e outras tantas entradas.

Como bem comentou João Batalha, da Frente Cívica, exigia-se ao primeiro ministro mais qualidade e escrutínio em quem mete no Governo e saber do seu passado ético e político de modo a evitar estes contratempos que o desgastam. Não o fazendo e, pior do que isso, enredando-se numa teia de nomeações, interesses e ligações familiares ou partidárias, põe-se a jeito.

28/12/2022

Reis parta a coisa!



Nas próximas eleições legislativas vamos todos contentinhos, arrigementados, a votar nos mesmos, a renovar novas maiorias.

Talvez por isso, por cá, os pensadores andam entretidos com banalidades, mudos e calados, ou estão de férias natalícias. Comentar o SNS, ou casos como o do euromilhões concedido pela TAP, ou pelo sistema, a uma tal de Alexandra Reis, é o comentas.

Siga! Vamos lá sorrir de contentes que a TAP é para isso mesmo, para fazer o nosso dinheiro voar. 

A senhora Reis recebeu 500 mil mocas mas parece que queria quase dois milhões (1,47). Uma gulosa! É um bocadito mais que os 125 euros que o Governo nos devolveu do que nos tira. Cada um é para o que nasce. 

Assim, a somar ao meio milhão, uma insignificância, serão necessários à nossa aérea mais 225 mil para tributação. Pouca coisa, a nova injecção de insulina já está aprovada.

Siga que é Portugal!

25/12/2022

Nota de falecimento

Faleceu António Vicente Ferreira Lopes (Tono do João), solteiro, de 55 anos de idade [05 de Abril de 1967 a 25 de Dezembro de 2022]. Residia no lugar de Cimo de Vila - Guisande.

Cerimónias fúnebres na próxima Terça-Feira, 27 de Dezembro, pelas 15:30 horas, na igreja matriz de Guisande, indo no final a sepultar no cemitério local.

Na próxima Sexta-Feira, 30 de Dezembro, ocorrerá a Missa de Sétimo Dia, pelas 18:30 horas na igreja matriz de Guisande.

Sentidos sentimentos a todos os familiares. Paz à sua alma!

A cagar fininho

O Arménio começou o dia  de Natal a cagar fininho. 

Pergunta aos seus botões se terá sido dos rojões com grelos, besuntados com azeite extra e dentes de alho, comidos na consoada vespertina em casa da sogra, ou se pelos clisteres de  longos intervalos de 20 minutos de publicidade no filme "Sozinho em Casa", já com mais tradição natalícia do que ir à Missa do Galo. 

Sentenciou que não, que não foi dos rojões com grelos, porque lhe souberam pela vida, mas sim da publicidade, dos perfumes, dos relógios, dos azeites e dos telemóveis. Foi, de facto, uma overdose e neste enjoo matinal não arrotava a alhos mas a Chanel N.º 5.

Mais logo à noite, como qualquer bom guisandense bem sabe, é que se cumpre a verdadeira tradição com a consoada no próprio dia 25. Prometeu a si mesmo, o Arménio, desligar a puta da televisão. Mais uma dose daquilo, ou apanhar nas ventas com a notícia de que uma tal Alexandra Reis foi prendada pela TAP com uma insignificância de meio milhão de euros, só porque não cumpriu o contrato, porque lhe arranjaram outro arranjinho, ou mesmo ver o nosso presidente entertainer com uma multidão atrás de si para o ver tomar uma ginginha, poderá resultar numa verdadeira caganeira. É que tratamentos desses são mais fortes do que o PLENVU ou PICOPREC.  A mais grossa será como azeite.

O povo por ora anda entretido com consoadas, rabanadas e aletria, mas logo que as luzes sejam desligadas e os presépios desmontados,  vai arrotar de fastio e enjoo e as caganeiras serão tão óbvias  que até podem ser previstas pelo IPMA e resultar em alertas alaranjados pela Protecção Civil.

Portem-se bem! Com jeitinho, a senhora Reis vai distribuir a prenda pelos mais pobrezinhos.

Feliz Natal!

24/12/2022

O Natal nos meus livros de religião da escola primária

 






Entre o meu montão de livros, tenho os de religião da escola primária, das quatro classes. Em todos eles está presente o tema de Natal, com ilustrações alusivas, que acima publico. 
Abaixo as páginas e as capas do conjunto.
Espero que gostem da partilha e que com ela se revigore o espírito natalício desses bonitos tempos de infância e da escola primária.



Ainda é Natal?


Tal como o disse num deste dias o meu amigo Mário Augusto, continuo a gostar muito do Natal, pelo que representa de valores cristãos, confraternização familiar e tradição, mas de facto já não é a mesma coisa como nós, os mais velhos, sentimos noutros passados tempos. E não porque antes fosse melhor, no que diz respeito a fartura de coisas boas, das que se põem na mesa e extasiam os olhares; bem pelo contrário, pois por esses tempos tudo o que ía à mesa na abençoada noite, era escasso e custoso. Mas era singular, genuíno e diferente de tudo  quanto se oferecia no resto do ano. Além disso, algumas das coisas associadas, só mesmo nessa altura do ano. Claro que ainda o bacalhau, as batatas e couve penca, as rabanadas, a aletria e pouco mais. Bolo-rei era um luxo para burgueses e a criançada animava-se com um rato de chocolate. Gente simples sempre teve gostos simples.

Hoje em dia a fartura e diversidade chega a enjoar e a tirar o apetite e quase que nos leva a desejar que esta quadra passe depressa, que não deixa saudades. Há de tudo e mais alguma coisa com a mesa inundada das coisas do costume e outras exôticas. As prendas são sofisticadas e qualquer pirralho de cinco anos é prendado com um smartphone ou um tablet de boa marca. Para as madames é coisa fina e perfumes só de 100 euros para cima. Já os homens, um vinho onde a qualidade seja o preço. Uma fartazana.

Para além de tudo, no que às tradições religiosas e espiritualidade do Natal diz respeito, a coisa ainda é mais sombria e passar a quadra com uma ida à igreja ou mesmo sequer abrir a alma para um pensamento mais elevado, é coisa que já não vai à mesa de muita gente, o que ajuda a reforçar a ideia de uma mera ocasião para comer, beber e divertir como se ao mesmo nível dum Carnaval. Não é por essa ligeireza que vem o mal ao mundo, concerteza que não, porque é sempre positiva a alegria e o são divertimento, mas nestas como noutras coisas é sempre importante colocar cada uma no seu próprio lugar.

Por tudo isso e mais alguma coisa, o Natal tornou-se escravo do mercantilismo, do comércio e do markentig associado, e os meios de comunicação social fazem o favor de nos lavar o cérebro já  a partir de Setembro.  Chega a ser um massacre de publicidade, com spots repetidos vezes sem fim como para terem a certeza de que os vimos e ouvimos. Durante semanas andamos a ser encharcados com perfumes a preços do ouro, algemados com relógios da mais sofisticada ourivesaria suiça e mais bucolicamente besuntados com azeites e tentados com postas de bacalhau dispostas na mesa por um tal de David, que também faz carreira nestas coisas de encher e vender chouriços.

Mas pronto, são sinais dos tempos e já não há volta a dar; Ou alinhamos pela velha máxima de que não os podendo vencer, juntemo-nos a eles, ou então já nada sobra do Natal porque atolado nesta torrente de vendilhões.

Posto isto, votos de um feliz e santo Natal para todos os familiares e bons amigos. Para os inimigos, para os invejosos e maldizentes, também um feliz Natal!

Nota à margem: A simples ilustração deste artigo é baseada na que em Dezembro de 1982 rabisquei para a capa do jornal "O Mês de Guisande" (na imagem abaixo), por isso uma memória com 40 anos.

23/12/2022

Enganem-nos, que nós gostamos

O Governo e as suas instituições são uns experts no uso de eufemismos. Fico sem saber se para se enganarem a eles próprios ou ao Zé Povinho, na filosofia do "engana-me que eu gosto".

Vejam que agora, a propósito da bagunça que se vive nos serviços de urgência do SMS na Grande Lisboa, nomeadamente nas especialidades de Ginecologia/ Obstetrícia e Bloco de Partos, saíu da cartola um plano pomposamente designado de "Nascer em Segurança no SNS", como se a supressão de serviços e encerramento de urgências, que sujeitam as grávidas a maiores deslocações e por isso a mais tempo em trânsito e riscos acrescidos, ainda assim signifique "segurança".

É a verdadeira analogia do "fazer mais com menos" ou "omoletes sem ovos". Uma renovada descoberta da pólvora e da invenção da roda.

Pensarão eles que com estas espertezas ficamos todos "seguros".

Só mesmo este tempo natalício para nos dar alguma paciência.

22/12/2022

Sentidos

Não sei o que em mim falha

Que os sentidos se trocam

Numa percepção baralhada.

Vejo-te com os olhos cerrados,

Saboreio o picante do teu olhar,

Escuto o calor do teu corpo,

E acaricio o som da tua voz.

Apesar disso, sinto-te toda,

Plenamente desvendada,

Porque os meus sentidos,

Todos num e cada um em todos

Para ti convergem

E em ti e de ti  se inundam.

21/12/2022

Natal 2022

 


Vaidades

Deixem de lado essas vossas vãs vaidades,

Por feitos que pouco a tão poucos vale;

Sejam tão simplesmente alma e emoção.

Esvaziem essas ocas frivolidades

Próprias de quem quer todos e tudo igual

Num ego inflamado, cheio como balão.

20/12/2022

Requalificação do Monte do Viso - Esclarecimento

Tomei conhecimento que no decurso da Assembleia da nossa União de Freguesias, realizada no passado dia 29 de Setembro pelas 21:00 na Casa da Cultura de Gião, relativamente às previsões de obras para a freguesia de Guisande, o Sr. presidente da Junta informou os presentes ter já articulado comigo a partilha do projecto de requalificação do Monte do Viso, para que, faseadamente, seja possível avançar com obras neste nosso emblemático espaço.

Em bom rigor, sobre este assunto e tendo eu sido mencionado, importa esclarecer que é verdade que o presidente da Junta, Sr. David Neves falou comigo sobre o assunto, interessadamente mas de forma muito informal, questionando-me sobre o tal plano ou projecto do tempo em que fiz parte da Junta da União. Sobre isso, apenas disse-lhe que de facto fez parte do programa da lista pela qual concorria, a requalificação do espaço do lado norte da capela, designado de parque de merendas. 

Depois de vencidas as eleições, e como era uma obra que importava fazer, o então presidente da Junta terá solicitado aos serviços da Câmara para elaborar o projecto ou plano. Certo é que eu quando o questionava sobre o desenvolvimento do mesmo,  era referido que ainda não havia resultados. E nunca houve em todo o mandato.

Do mesmo modo, reuniram-se condições para o alargamento da Rua de Santo António na parte nascente do arraial até ao entroncamento com a Rua do Caminho Novo, tendo sido colhidas as autorizações e documentos dos proprietários confinantes. Supostamente o assunto foi encaminhado para protocolo com a Câmara Municipal mas certo é que nada foi realizado nesse mandato (2104/2017) e no mandato seguinte não foi dada continuação e nada foi feito. E com pena, pois o melhoramento seria importante, já que a actual rua é bastante estreita, o que dificulta o trânsito sobretudo em dias de eventos no Monte do Viso.

Em face disso, para meu natural desapontamento porque ambas as propostas (a da requalificação e a do alargamento) tinham sido minhas, nunca cheguei a ver começado ou acabado tal projecto ou plano, nem as obras se realizaram. De resto, esta situação, este desinteresse e incapacidade, quer da Câmara, quer da minha Junta, a par de outras, fizeram com que pusesse de lado qualquer possibilidade de recandidatura. Há princípios que devem valer.

Por conseguinte, do que os serviços da Câmara fizeram ou não quanto ao projecto ou plano para o Monte do Viso, desconheço em absoluto.

Em todo o caso, enalteço o interesse demonstrado pelo Sr. presidente da Junta em querer retomar este assunto esperando que, seja lá com que plano ou projecto, algo se venha a fazer como requalificação do Monte do Viso, nomeadamente na envolvente da capela e do tal parque de merendas.

O Sr. presidente mostrou ainda interesse em que eu próprio apresentasse ideias, já que admitia que a depender da colaboração da Câmara a coisa será muito demorada.

Em resumo, não tenho nem conheço, pois, qualquer plano ou projecto desenvolvido durante o mandato em que fiz parte do executivo (2014/2017), bem como, ao simpático repto do Sr. presidente, prefiro que o mesmo seja desenvolvido por técnicos competentes e da área. Certamente que, se for caso disso, estarei disponível para ajudar e dar algumas ideias, obviamente que sem qualquer contrapartida, mas acima de tudo espero que se encontre uma solução que dignifique o local e que, mais do que isso, a obra se faça porque o local é merecedor. Estou certo e confio que esta Junta lhe dará a devida atenção.

Vazio



Não! Talvez já não valha a pena

Esperar do homem epifanias

Que o levem a mais humanidade;

Foi-se a esperança na última cena,

Sala e cadeiras ficaram vazias;

E nada sobrou dessa veleidade.


O poeta assim não sente remorsos

Porque o homem já não o inspira,

Sombrio jardim onde nada medra;

Lamenta-se, vencido de esforços

Por ver na alma, cheia de mentira,

Menos poesia do que numa pedra.

19/12/2022

E a Argentina venceu


Pouco tempo dediquei ao Campeonato Mundial de Futebol no Qatar. E no que toca a assistir aos jogos, menos tempo ainda. Mesmo de Portugal terei visto pouco mais que os resumos. Mas do que pouco que fui vendo, e é impossível fugir disto porque por estes dias a comunicação social não falou doutra coisa, fico com algumas opiniões, porque apenas minhas: 

A Argentina foi uma justa merecedora do título apesar do arranque desastroso com uma derrota frente à Arábia Saudita. Messi teve o mais que merecido coroamento como o melhor jogador do mundo, ou lá o que isso queira significar. No jogo da final, depois de ter dominado completamente a França durante quase todo o jogo, não havia ao necessidade ao Scaloni mexer na equipa retirando um Di Maria inspirado, e com isso dar fôlego aos bleus e logo através de um penalti ter permitido que os gauleses entrassem num jogo que estava perdido. Mesmo depois no prolongamento, novamente na frente, lá concedeu uma segunda vez  um outro penalti. Verdade se diga, indo para o desempate por penaltis, seria quase injusto que a França vencesse a competição através deles, dos penalties. Era sorte a mais.

Quanto a Portugal, uma participação sem história, sucumbindo nos quartos à "potência" do futebol mundial, Marrocos. A sortezinha, um coelho na cartola, a protecção dos deuses e o alinhamento dos astros que se verificou no Europeu de 2016, não se repetiu e sem honra nem glória, a selecção de Ronaldo e mais o resto, lá regressou com o rabinho entre as pernas. Dizem agora que o Fernando Santos finalmente vai dar o lugar a outro e que Ronaldo, amuado como é seu timbre, ainda não se manifestou. 

Ronaldo, um fantástico futebolista, e que acredito que é um bom ser humano, enquanto figura da indústria do futebol, não tem tido personalidade à altura e esta sua fase final tem sido mal gerida como que a tentar enganar o destino de que tudo tem um fim. Durante todo o tempo no Qatar, foi sempre a figura principal mas não pelos melhores motivos. De resto, a famosa entrevista na véspera só veio dar espaço para essa instabilidade. Já poderia ter saído pela porta grande da sua fantástica carreira, mas em vez disso considera-se ainda um deus sol com vinte anos onde tudo à sua volta deve gravitar. Não é assim e por isso vai perdendo pontos e dando motivos a quem o critica no seu estilo egoncêntrico.

No fim de tudo, foi quase um Mundial atípico, desde logo pela sua atribuição ao Qatar num processo corrupto que contribui para o descrédito destas coisas. Tudo gira em torno do dinheiro e este move montanhas. O recente caso com eurodeputados, que evidenciam um esquema de corrupção de autoridades do Qatar, é apenas mais uma certeza quanto à forma como as coisas funcionam. O dinheiro ainda continua a valer. No caso, perde o futebol, mas em rigor pouca mossa faz à indústria porque para além de uns arrebates de consciência marcados pela filosofia do politicamente correcto, na realidade tudo continua a rolar como se nada fosse e todos compareceram à competição, com mais ou menos simbolismos de protesto.

É este um futebol com selecções que já há muito deixaram de ser nacionais e que não passam de uma reuniões de jogadores onde a questão de nacionalidade já pouco diz. Por conseguinte, quem ainda procura ver o futebol pelo seu lado menos conspurcado, mais genuíno, já há muito que perdeu as ilusões do regresso ao passado. Face a isto, já pouco sentimento desperta ver um grupo de malta bem paga a cantar, invariavelmente desafinada, o hino nacional e com a mão no peito. Tretas!

Viva la Argentina!

18/12/2022

Cada coisa no seu lugar

Mas porque carga de água tenho eu que agradecer ao Fernando Santos, agora que deixou o cargo de treinador da selecção de futebol?

Fez ele algo de notável que mudasse a vida concreta dos portugueses? E fê-lo de graça, num exercício de generosidade e altruísmo?

Tanto quanto saiba, foi ele sempre muito muito bem pago para o que fazia. Ganhava mais por mês que uma grande maioria dos portugueses numa vida inteira de trabalho. E não se tem falado, mas quanto levará agora de indemnização?

Alguém agradece particularmente a milhares, mesmo milhões de portugueses, que trabalham com dignidade e profissionalismo no dia a dia, com horários pesados, com esforço e dedicação? Alguém agradece a um médico, a uma enfermeia, a um varredor de ruas, ao homem da recolha do lixo, a um trolha, pedreiro ou mineiro, quando termina o seu trabalho?

Vão-se catar! As coisas são como são, mas é sempre bom que lhes demos não mais que a sua devida importância. Cada coisa no seu justo lugar.

Em resumo, fez um trabalho, com êxitos e com fracassos, mas foi excelentemente pago para isso. O país nada lhe deve. 

Que seja feliz, tenha vida e saúde, mas mais do que isso soa a moléstia. Não é questão de inveja ou coisa que lhe pareça, mas há gente bem mais merecedora do nosso agradecimento. O futebol, por mais que o pintem, será sempre uma banalidade, um entretenimento.

Natal

Abaixem-se, submissos, os montes,

Aplanem-se os  vales viçosos,

As aves cantem hinos de louvor,

E amansem o trovão e o vendaval.

Fiquem límpidos os horizontes,

Alegrem-se os regatos chorosos,

Porque é nascido Jesus Senhor

No mistério de renovado Natal. 

14/12/2022

Cavalo a trote


Sabemos que o símbolo ou logotipo dos CTT é um mensageiro montado a cavalo. E faz sentido, pois apesar de já num contexto de modernidade, do automóvel, do comboio e do avião,  e de tecnologias de informação, os nossos correios parece que ainda andam a cavalo a distribuir correspondência, tal é o atraso com que o fazem. 

Bem sabemos que a culpa não é propriamente dos carteiros, porque em todas as profissões há-os competentes e responsáveis, ou nem por isso, mas do sistema e da política da empresa.

Neste contexto, não me parece de todo aceitável que uma carta com uma convocatória para uma consulta externa no hospital ou para uma convocatória de tribunal  seja recebida em casa apenas no dia da véspera da data.  E, dizem, casos há em que já depois das datas, nomeadamente nas cartas dos serviços de águas, telefones e electricidade. Num dos casos, como me aconteceu, valeu o sistema de convocatória por SMS que já dispõem os hospitais.

Por sua vez, os carteiros, assoberbados com tanto trabalho e com tão fracas condições, tantas vezes não tocam uma nem duas vezes para recolher uma assinatura em carta registada e simplesmente optam por enfiar na caixa o aviso para a correspondência ser levantada no posto. Já me aconteceu estar em casa e o carteiro deixar tal aviso sem tocar para saber se alguém está. A lei do menor esforço.

Quem é que põe cobro a isto? Eu costumo reclamar nos sítidos adequados mas porventura a generalidade das pessoas não reclama coisa nenhuma e assim, passivamente, é responsável por este mau serviço.

É aguentar!

Andamos todos numa espécia de guerra contra as alterações climáticas e fazemos questão de, invariavelmente, as responsabilizar pelos problemas e prejuízos ocorridos sempre que S. Pedro nos brinda com umas fortes chuvadas. Queixamo-nos se não chove, queixamo-nos se chove ou se nem uma coisa ou outra. Andamos, pois, a confundir o manda-chuva celeste. E, todavia, muitos dos problemas como os agora ocorridos na grande Lisboa, em Faro e noutros locais, resultam ou são agravados tão simplesmente pela mão e intervenção humanas. Mas desta realidade pouco se fala como se fosse uma questão menor.

Em todos os aglomerados urbanos, foi-se construindo ao arrepio das leis da natureza, sobre vales de cursos de água e seus leitos de cheia e mesmo estrangulando ou suprimindo ribeiras, maiores ou menores. Em muitas das nossas cidades, são mais que muitas as ribeiras que correm sobre edifícios e debaixo de ruas. Quantas ribeiras existem a céu aberto em Lisboa ou no Porto? Poucas ou apenas uns curtos troços porque no geral estão entubadas.

Mesmo no nosso concelho da Feira, os exemplos dessa prática são mais que muitos. Veja-se no centro da cidade sede o rio Cáster a correr estrangulado em ambas as margens por entre edifícios.

Durante décadas construiu-se ao desbarato, sobre linhas de água ou à face das suas margens. Ocupam os leitos de rios e ribeiras, habitações, fábricas e armazéns. 

Só não vê quem não quer. Mesmo aqui em Guisande permitiu-se num passado recente, e já sob a égide de um PDM, que uma unidade industrial nascida de forma clandestina, cobrisse largas dezenas de metros do curso de um regato que no inverno é um rio. E, pasme-se, dizem que foi legalizada.

Agora, numa reviravolta, para se edificar um simples muro de vedação tem que se respeitar pelo menos 5 metros de afastamento, mesmo que a linha de água, em rigor, por vezes não seja mais que um simples rego de rega.  Diz o povo, com razão, que não há fome que não traga fartura. Nisto, do ir dos 8 ao 80, somos todos uns ases. 

Entretanto, claro está, como dizia por estes dias o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Carlos Moedas, não se pode mudar a geografia da cidade. Pois não! Nem de Lisboa, nem de Faro, nem de Águeda, nem do Porto nem da Feira e por aí fora. Por isso, não se queixem apenas das alterações climáticas mas das muitas asneiras e burrices que tantos autarcas permitiram sem qualquer veleidade. 

É caso para se dizer: - Fizeram merda, agora é aguentar!


[foto: O Observador]

12/12/2022

Era bom que chovesse

Era tão bom que hoje chovesse,

Esta míngua de tudo inundasse

Até que o céu de novo rompesse

E lá de cima o sol espreitasse.

11/12/2022

Grupo de Jovens de Guisande - 1.º aniversário

 


O Grupo de Jovens de Guisande celebrou ontem, 10 de Dezembro, o seu 1.º aniversário. Tal como o fez o nosso pároco, Pe. António Jorge, endereçamos os parabéns e que o grupo possa ser frutífero  em todas as frentes da sua acção na paróquia, na amizade, na partilha, nos relacionamentos humanos, no crescimento e amadurecimento da fé, mas também inclusivo e integrador de muitos mais jovens que andam deslocados destas coisas da igreja, da comunidade e da paróquia.

Em rigor, este primeiro aniversário refere-se em concreto a esta geração de jovens, já que na realidade a paróquia mesmo que com interregnos, em diferentes tempos foi tendo diversos grupos de jovens, num dos quais fiz parte pelo início da década de 1980. Um dos pontos fracos a todos eles foi a incapacidade de ser dada continuidade geracional. Por conseguinte, a experiência tem mostrado que estes grupos mais cedo ou mais tarde, acabam por ser interrompidos quando não há uma renovação que permita colmatar com entradas de novos elementos  aqueles que por motivos diversos, incluindo a idade, vão saindo. Em todo o caso, mesmo nesta realidade de algo que não tem perdurado, é sempre positivo enquanto dura e por isso é importante que haja uma entreajuda e colaboração entre o grupo e a comunidade para que no fim das contas o saldo seja sempre positivo.

Bem hajam e votos de boa continuação na caminhada, nomeadamente na etapa que será a vivência da Jornada Mundial da Juventude no próximo ano em Lisboa.

09/12/2022

Assembleia de Freguesia - 22 de Dezembro de 2022

 


Dar ao radar


Acho piada quando pelas redes sociais há malta bondosa a informar onde há radares de detecção de velocidade. Na mesma onda, a todos quantos criticam a "caça à multa".

Bem vistas as coisas, não há dúvida que o Estado é um caçador nato e tanto é assim que parece que acabou de investir milhões em mais armas pesadas que tanto detectam a velocidade máxima como a média.

Mas, por outro lado, a ter em conta o que em cada dia vamos vendo nas nossas estradas, em que as velocidades definidas são totalmente desrespeitadas, o que até é criminoso dentro das localidades, como acontece, por exemplo, na Rua Nossa Senhora de Fátima, da Leira à Gândara, em boa verdade devia haver um radar para cada português ou então os próprios veículos terem incorporados sensores de velocidade que em tempo real forneceriam os dados ás autoridades. Talvez aí fosse possível que as nossas estradas locais deixassem de ser autoestradas.

Ainda no Domingo passado, circulava eu pela nova variante no sentido Escariz-Pigeiros e alguém atrás de mim "cagou" na velocidade máxima indicada e ultrapassou-me a alta velocidade transpondo não uma mas duas linhas contínuas, quando o poderia fazer de forma adequada 200 metros mais abaixo. Pergunta-se: O que é que um caramelo destes merecia? Deve ser avisado da proximidade de um radar, ou dar-lhe sinais de luzes a avisá-lo que à frente está a patrulha da GNR a mandar parar?

O espírito da coisa

No mínimo acho piada quando vêm falar e enaltecer o "espírito da nossa selecção de futebol", mostrando fotografias dos jogadores a abraçarem-se, o Pepe a enfiar subalternamente a braçedeira de capitão ao CR7, e por aí fora com os habituais lugares comuns.

Confesso, que mesmo não sendo muito espirituoso, tivesse eu o prestígio a fama e sobretudo o proveito dessa condição de jogadores, pagos todos a peso de ouro, e com bons prémios à espera dos resultados, também eu estaria todo imbuído desse espírito.

Vá lá, divirtam-se, mas poupem-nos!

08/12/2022

Que hei-de-fazer?


Que hei-de fazer se me moldaram assim, a vida, os pais, a sociedade? Gostos não se discutem e, além do mais, mudar os nossos gostos para alinhar com os demais, já é pedir muito. Era só o que faltava andar a dançar ao ritmo do politicamente correcto!

Já não tenho paciência nem idade para mudar assim tão em contratempo. E depois uma coisa leva à outra: Não tenho paciência porque a idade já não a permite nem a idade tem espaço para a acomodar.

Assim, em rigor estou-me borrifando para pasmos ou narizes torcidos quando elenco algumas das minhas antipatias. Gosto da maior parte das coisas e das pessoas boas, honestas, generosas, simples, humildes, inteligentes, práticas e assertivas. 

Gosto e aprecio uma mulher elegante, bem vestida, sem piercings, tatuagens ou pinturas, mas apenas o veludo puro da sua pele; aprecio as rugas de quem as tem pela força da idade e das canseiras; simpatizo com gente harmoniosa, equilibrada, de concensos; aprecio uma obra prima ou despretenciosa, nas artes plásticas, na música, na literatura ou nas ciências. 

Mas, claro está, também não gosto de muitas coisas e de algum tipo de pessoas: gente egocênctrica e vaidosa como se os seus umbigos sejam os centros do universo; gente presunçosa, mesquinha e invejosa; gente tatuada, não para si mas para os outros; gente com argolas no nariz, nas orelhas, na língua e sabe-se lá mais em que reentrâncias; gente que compra calças rotas; pessoas que andam com as calças como se o traseiro seja nos joelhos; pessoas a mostrarem as cuecas ou o rego do cú; homens idosos que se vestem como se tivessem 16 anos; gente que paga caro por roupa de marca e ainda orgulhosamente lhe faz publicidade de borla;  gente que paga balúrdios em futebol para ajudar a manter ordenados principescos a uma classe de elite e comissões escandalosas a corjas de dirigentes oportunistas; políticos que se governam com ares  de honestos; pessoas que se expõem nas redes sociais como se as suas vidas, andanças ou carinhas felizes, tenham um interesse superior para os outros ou expõem de forma excessiva os seus estados de alma, a sua mais recôndita intimidade ao voyeurismo alheio. 

E mais não escrevo porque ficaria longo o texto. 

E, contudo, todos têm esse direito e liberdade de serem quem são, como são, como vivem, se vestem, despem, ou como se comportam. Não sou de todo contra essa liberdade e direitos, mas tenho igual direito e liberdade de não gostar, de não apreciar. De resto, essas minhas antipatias ou arrelias, são apenas íntimas e a terceiros não causam mal ou prejuízo algum. É apenas uma coisa interior. Mesmo este texto, é generalista e não aponta o dedo a alguém nem fornece chapéus para serem enfiados.  Além do mais, desse grupo de coisas ou predicados com que não morro de amores, até tenho amigos e pessoas que bem considero. A coisa não é, por isso, pessoal nem de preconceitos radicais. Apenas porque não vão de todo à minha mesa.

Em resumo, até mesmo nestas coisas de exprimirmos, ou não, as nossas antipatias, os nosos gostos, andamos muito castrados, porque os cânones do politicamente correcto são já uma pandemia das nossas sociedades ditas desenvolvidas e por eles há gente que apenas sendo o que são e dizendo o que pensam, perde os cargos, empregos, negócios, amigos, etc, etc. 

Mesmo que não oficialmente, temos por todo o lado uma invisível polícia de nova moralidade, só que esta, já subvertida ou invertida. Parecem opostas, a da moralidade e a do politicamente correcto,  mas na realidade são a mesma coisa, porque ambas castram, mesmo o direito de se não gostar.

07/12/2022

Pedintes modernos


A campaínha tocou. Pela hora adivinhava-se que seria o "cliente" do costume. Assomou à porta e confirmando-se, protestou:

- Você outra vez? Não sai daqui para fora!

- Já não passava há quase um mês! - desculpou-se do lado de fora o pedinte.

- Mas você está com bom aspecto! Não tem quem lhe arranje um emprego? - Perguntou o dono da casa para lhe medir a reacção.

- Não posso! Eu sou um homem doente! - replicou num tom lamurioso.

- Pois, olhe que não me parece, vejo-o sempre por aqui, com bom ar, a caminhar ligeiro a dar a volta à freguesia! Olhe que não é para gente doente!

- Mas dê-me lá uma moeda! - pediu, desinteressado do sermão.

- Vou dar, mas não apareça aqui antes da Páscoa! - deu-lhe uma moeda de dois euros, como se fora a juntar à moeda habitual o subsídio de Natal.

O receptor olhou para a moeda, acariciou-a, fez uma pausa e disse: - Olhe que já passo aqui há muito tempo e é a primeira vez que você me dá uma moeda de dois euros!

- Ai é? Pois para além de ter boa memória, está com sorte! Mas está a queixar-se ou falar de contente? - questionou o dador. Ele, porém, encolheu os ombros e não lhe respondeu deixando-o sem saber, levando-o a replicar:

- Bem, olhe que não é mau! Se lhe derem dois euros em cada uma de cinquenta casas por aí acima, são 100 euros. Ganhará bem o dia! Mas vá lá à sua vida! - despediu-o para não alongar a conversa.

E lá foi o pedinte à sua vida, que não terá outra. O dono da casa ficou a pensar naquela justificação do ser doente Considerou que fosse mesmo doente, o que de todo não lhe pareceu, certamente  que o nosso amado estado social o socorreria. Ou será que não? Afinal estamos em 2022 e ainda há disto, pedintes, tal qual como no tempo da velha senhora. E já lá vão 50 anos sobre a mudança de direcção. Só que os do antigamente, parecia-lhe, esses pelo menos rezavam, recebiam o que calhasse e agradeciam encarecidamente. Os pedintes modernos, esses não pedem, exigem e resmungam se a moeda é pequena.

Nesta dúvida, ficou o dono da casa, e ficamos nós, sempre com muitas reservas sobre quem ainda anda de porta em porta, a pedir com verdadeiras necessidades ou sem elas. E são muitos, desde bombeiros, a supostas associações de não sei das quantas, para além dos peditórios para as diferentes situações no âmbito da freguesia e paróquia, seja para esta ou aquela festa, para a igreja, para os presuntos, para os pobres, para os ucranianos, para os africanos, para isto, para aquilo. É certo que é bem melhor poder dar do que precisar de pedir, mas para quem tem que trabalhar para poder pagar as suas contas e responsabilidades, sem chorudas pensões ou rendimentos que não sejam os do trabalho, mesmo o pouco que se dá tem peso perante tantas solicitações. 

Mesmo nestas dificuldades, porventura dar dois euros a um cliente recorrente, mesmo considerando que será apenas por vício, terá algum significado e mesmo valor, para quem dá e para quem recebe. Afinal, serão poucas as casas que darão dois euros a quem com insistência toca à campainha. Porventura, quase sempre, quando alguém bate à porta de quem realmente poderia dar, não 2 mas 5 ou mesmo 10 euros, sai despedido sem nada nas mãos e a única coisa que pode almejar levar é o sermão. Esse dá-se ao desbarato.

Não está fácil, pois não, tanto para quem pede como para quem dá!


[foto: sabado.pt]

05/12/2022

Nascimento do rio Uíma e outras questões - Rio Ul e rio Antuã

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Há dias, a propósito de uma publicação no Facebook pela Junta de Freguesia de Arrifana, em que nela era referido que ali nascia o rio Uíma (posteriormente alterada ou corrigida para ...aqui nasce o afluente do rio Uíma), gerou-se, naturalmente, uma reacção, alguns comentários e daí alguma celeuma sobre a legitimidade da paternidade deste importante curso de água que nasce e percorre grande parte do concelho de Santa Maria da Feira, até que, a norte, depois de percorrer terras do concelho de Vila Nova de Gaia, ali desagua na margem esquerda do rio Douro, na localidade de Crestuma, ligeiramente a jusante da barragem de Crestuma-Lever.

Confesso-me um interessado em matéria de hidrografia e dos rios e ao assunto dedico algum tempo e atenção. E do muito que sei e procuro saber, verifico que a questão do nascimento dos rios e até dos seus nomes, é pano para muitas mangas e por isso para muitas confusões, discussões e controvérsias. Algumas vêm de tempos imemoriais, outras mais ou menos recentes. 

Uma destas questões que ainda não tem consenso nem decisão pelas estâncias oficiais nesta matéria, que serão o Instituto Geográfico Português e ou o Instituto Hidrográfico, prende-se com a confusão entre os rios Ul e Antuã. ACâmara Municipal de S. João da Madeira decidiu em determinada altura (2004) mudar o nome do seu parque da cidade, inicialmente baptizado de Parque do Rio Antuã, para Parque do Rio Ul, porque depois de ter solicitado a alguém um parecer sobre o assunto, considerou que o rio Ul é o que passa pela cidade e pelo parque. Assim, nesta versão adoptada pelos sanjoanenses e por muitos outros defendida, o Ul é o rio que nasce próximo da aldeia de S. Mamede, lugar da freguesia de Fajões, do concelho de Oliveira de Azeméis e que depois segue pelos lugares de Monte Calvo e Vila Nova da freguesia de Romariz, passando ainda por Milheirós de Poiares, S. João da Madeira, a poente da cidade de Oliveira de Azeméis e vai precisamente confluir com o rio Antuã entre as freguesias de Ul, Travanca e Loureiro, de Oliveira de Azeméis, um pouco abaixo do actual Parque Temático Molinológico de Ul. 

Por conseguinte, os defensores desta versão em contraponto defendem que por sua vez o rio Antuã é o que nasce na encosta da Serra Grande, junto ao lugar de Alagoas, freguesia de Escariz, do concelho de Arouca, e que depois desce por Fajões, passando por Carregosa e ainda por outras freguesias de Oliveira de Azeméis e pelo poente desta cidade, até então recolher as águas do seu afluente Ul, seguindo o seu curso passando pelo concelho e centro da cidade de Estarreja para logo depois finalmente desaguar na ria de Aveiro perto da localidade de Salreu.

Defendendo esta versão do rio Antuã que também nasce em Escariz - Arouca, por sua vez este rio recebe pela sua margem esquerda ainda um importante afluente, o rio Ínsua, que nasce também em Escariz na encosta poente da Serra Grande, entre as aldeias de Coval e Caçus. Dali desce pela baixa do lugar de Nabais e já no vale de Carregosa encontra-se com o rio Antuã. Mas msmo aqui, há elementos cartográficos que confudem o Ínsua com o Antuã, como no caso do mapa acima. Ou seja, a somar à principal controvérsia, soma-se uma segunda confusão.

Como se disse, esta questão sobre o rio Antuã incide apenas sobre os dois troços a montante do ponto de confluência entre ambos,  já que depois dele para jusante o nome é concensual e não oferece dúvidas. Para quem defende o rio Ul como o que passa por S. João da Madeira, invocam documentos antigos, onde surge tal designação, logo no séc. XII, em 1177, no documento de doação do Couto ao Mosteiro Cucujães, por D. Afonso Henriques, mas também o facto de passar pela freguesia de S. Tiago de Riba Ul, o que parece justificar-se. Todavia, é muito comum que os rios tenham um nome associado a uma determinada terra ou aldeia mas que por vezes passem bastante ao lado o que por si só não servirá de justificação.

Por outro lado, os que defendem o rio Antuã como o que passa por S. João da Madeira, invocam tambem documentos antigos que invocam esse nome anteriormente, no tempo do período da ocupação romana. Ainda esgrimem o princípio internacional que estabelece que quando dois rios se juntam o nome que se dá ao rio após a junção é a do rio mais comprido desde a nascente ao ponto de confluência. Ora por esta regra o troço do rio com maior extensão até à confluência de ambos é o que passa por S. João da Madeira (18 Km contra 17 Km), de resto como é descrito nas cartas oficiais do Instituto Geográfico do Exército nas suas populares cartas militares.

Esta velha questão do Ul e do Antuã, será, pois, para continuar, e mesmo que venha a ser tomada uma decisão oficial, a controvérsia há-de manter-se porque com diferentes argumentos e ambos válidos.

Quanto ao rio Uíma e a questão do seu ponto de origem ou nascimento de que falei no início: Tenho também para mim, do que conheço, que principia no lugar de Duas Igrejas, na zona de aplainamento da encosta poente do Monte Crasto, por sua vez este uma extesão do Monte de Mó. O lugar onde nasce o seu troço principal, porque outro há que vem da zona mais a norte do vale do lugar de Duas Igrejas, é conhecido como Fintuma, ou seja, Fonte do Uíma, já que em tempos antigos o rio era também conhecido como Uma, daí a origem do nome dos lugares associados de Tresuma (Trás do Uma), em Pigeiros e Crestuma (Crasto do Uma). Esse local onde dizem que antigamente brotava num forte bolhão superficial, fica muito próximo da zona também conhecida por Valos, um pouco a norte/nascente do campo de futebol do Romariz F.C.

Assim sendo, não nos parece crível nem ajustado que a freguesia de Arrifana o considere como nascido no seu território. É certo, que de Arrifana o Uíma tem um pequeno afluente, o Ribeiro do Regueirinho, mas de muito inferior extensão e caudal, mesmo intermitente, a ponto de ser considerado como fonte de nascimento. Parece-me, pois, excessiva tal pretensão e por isso e daí a tal publicação ter sido posteriormente corrigida ou actualizada fazendo então referência ao afluente, que deverá ser o tal ribeiro do Regueirinho.

Em todo o caso, e isto só reforça a realidade das confusões que são de origem antiga, a ter em conta as respostas do pároco de S. Jorge ao inquérito que em 1758 veio dar lugar à compilação designada de "Memórias Paroquais", quando é feita a referência ao rio Uíma, este é indicado como nascendo em Milheirós de Poiares.  Ora pelo que atrás ficou dito, também soa a tremenda asneira, já que sendo certo que passa pela freguesia de Milheirós de Poiares, na zona onde se desenvolve a curva pronunciada que inflecte o seu sentido de curso de norte/sul para sul/norte, e também recebe dois pequenos afluentes na margenm esquerda, um deles o ribeiro do Casal e outro vindo dada zona da Espinheira, não é de todo razoável atribuir ali a sua nascença, já que de facto o troço principal vem precisamente de norte para sul do lado de Pigeiros e já com caudal forte e regular.

Como se vê, estas questões com os rios, suas origens, seus traçados e seus nomes, é coisa para muita confusão e diferentes versões. Ademais, quanto aos nomes, é muito comum, e aceite, que um mesmo rio tenha diferentes nomes consoante os lugares, terras e aldeias onde passam. Como exemplo, no caso da ribeira que nasce em Guisande e passa por Gião, Louredo, Vale e Canedo, até desaguar no rio Inha, tem diferentes nomes. Oficialmente é descrito como ribeira da Mota, e há motivos para isso, de que noutra altura falarei, mas popularmente também é conhecido por rio da Lavandeira (há uma acta da Junta de Freguesia dos anos 1940 que o menciona por esse nome) e já na zona de Louredo é mais conhecido por rio Cascão. Mesmo na zona do lugar de Serralva, da freguesia do Vale, na sua margem direita, era conhecido noutros tempos, e talvez ainda nos actuais, como rio Fajouco, um topónimo que remete para o sentido de lugar baixo ou fundo.

Hão-de, pois, durar no tempo este assunto e estas questões. Apesar disso, os rios não são de niguém em particular, mas de todos e por isso e como tal devem ser preservados, limpos e valorizados como um bem comum pela riqueza ambiental e paisagística que oferecem. Com a onda e moda dos passadiços, que se generaliza por todo o país, por vezes até com aparatos despropositados, os rios e ribeiras e as suas margens vão sendo oferecidas à fruição de caminhantes. Mas mais rios e ribeiras no nosso concelho continuam esquecidos e mesmo desprezados sem qualquer limpeza regular. Há, pois, ainda muito a fazer pela sua requalificação e criação de acessos pedestres marginais.

02/12/2022

É disto que o meu povo gosta!




Os critérios, incluindo os de gestão de dinheiro,s em algumas entidades da nossa administração, como é o caso das Câmaras Municipais, são, tantas vezes, verdadeiramente insondáveis. Umas fazem ciclovias todas xpto mas os passeios para os peões estão no geral super degradados, constituindo até perigo para quem neles caminha. Outras, como por exemplo, Arouca, tem uma ponte que custou literalmente milhões, feita não para encurtar ligações viárias e aproximar populações e lugares mas para fins turísticos e recreativos. Apesar disso, não só, mas Arouca, tem um interessante leque de estradas em reles estado, que bem mereciam ser despromovidas à categoria de caminhos de cabras, sem ofensa para as próprias.

Em Arouca os turistas são chamados a experimentar a sensação do abismo e tremuras no estômago, que logo a seguir há-de ser confortado com bifes de arouquesa, mas enquanto isso muita gente local transita no dia-a-dia com estas sensações de ver a aumentar a conta na oficina automóvel, para além de não só lhes moer as suspensões como a paciência.

Mas logo que tocar o clarim para reunir as tropas na eleição, far-se-á fila, incluindo-se nela quem usufrui destes "caminhos", para legitimar os mesmos mandantes como bons decisores.

Como diria o saudoso Jorge Perestrelo, "É disto que o meu povo gosta!"

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